Contra o imperialismo, o capitalismo e o neoliberalismo. A favor dos trabalhadores: Socialismo ou Barbárie!

Polêmica

Colômbia: Para onde vai o Governo Petro?

Por Ricardo Rabelo

O governo do “bloco histórico”   colombiano  enfrenta grandes problemas e contradições. Está claro que o governo não está conseguindo cumprir com seus compromissos adotados na campanha eleitoral e que é preciso uma reviravolta pois apenas 25% de suas promessas de campanha foram cumpridas. A saída de Petro foi culpar seus ministros e diretores de departamentos administrativos. Ele fez uma reunião televisionada de seu governo em 4 de fevereiro e houve um conflito generalizado entre os membros do governo, que resultou com a demissão de dois deles e de vários cargos de alto nível. A 9 de fevereiro, Petro pediu a todos que se demitissem para nomear um novo governo. Ou seja: o presidente é revolucionário, quer mudanças e seus ministros não são revolucionários.

  Surpreendente também foi a forma como ele atacou o último grupo guerrilheiro histórico remanescente na Colômbia, o ELN, para justificar o retorno a uma estratégia de contrainsurgência, abandonando a estratégia de  paz total e declarando estado de distúrbio interno por 90 dias.  

Na verdade, o  presidente simula uma virada à esquerda quando  aprofunda uma estratégia de manter a ordem e virar à direita. Foi mantido o chefe de gabinete Armando Benedetti, uma posição estratégica ocupada por um político direitista. Na verdade  o objetivo da reunião era uma reviravolta no governo, mas não no sentido de mudança. A crise humanitária e a guerra em curso em Catatumbo e outras partes do país devido aos confrontos entre os dissidentes das FARC, a Frente 33 e o ELN, que causaram mais de 60 mortes e deslocaram cerca de 50.000 moradores  e a mudança para uma política de segurança nacional eram os objetivos verdadeiros da reunião.  O “Governo da Mudança” de Petro é um exemplo claro das contradições que a esquerda parlamentar e social-democrata enfrenta devido ao seu colaboracionismo com a burguesia, que leva a acordos que pouco ou nada beneficiam a classe trabalhadora.

Os movimentos populares que determinaram a grande votação em Petro e na vice-presidente Francia Márquez esperavam uma mudança nas suas condições de vida. Mas os pactos com os políticos burgueses que há décadas sangram econômica e fisicamente a população mais vulnerável do país impediram que o governo levasse à frente seu programa de mudanças. O que sustenta o governo é o apoio de amplos sectores da juventude e da classe trabalhadora, do movimento feminista e LGTBI+ e dos povos originários, que não hesitaram em mobilizar-se repetidamente contra a extrema-direita. Mas as políticas capitalistas do governo ameaçam solapar este apoio. 

Outro problema é a forma como o governo trata a questão da soberania nacional. Apesar de sua atitude firme em relação à  decisão escandalosa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de deportar centenas de cidadãos colombianos, algemados e acorrentados como se fossem criminosos, ele não sustenta uma política de defesa da soberania colombiana. Nada fez, por exemplo, com relação ao número extremamente alto de bases militares norte-americanas no país. 

A história das relações diplomáticas, econômicas e militares entre os Estados Unidos e a Colômbia,  mostra que a soberania da Colômbia sempre foi subordinada aos interesses geoestratégicos e econômicos da potência hegemônica. O país deixou de ser uma colônia espanhola para ser  um estado nacional sob o domínio hegemônico dos Estados Unidos. A reação a esta subordinação se expressa no conflito armado interno, através da guerra contrainsurgência e anticomunista de mais de 80 anos, que ainda persiste em várias  regiões do país: Catatumbo, Arauca, Cauca, Pacífico, Chocó, Nariño. 

Portanto, romper as negociações com o ELN e passar de uma proposta de paz total para uma guerra de contrainsurgência em Catatumbo e outras partes do país, com o argumento falacioso de que o ELN é simplesmente um cartel de drogas sob as ordens da máfia mexicana, não é apenas um ultraje, mas também uma decisão errada.  É exatamente o que a burguesia reacionária vem tentando fazer há 80 anos: sufocar totalmente qualquer questionamento da ordem imperial norte americana. Hoje se chama estado de convulsão interna no Governo de Gustavo Petro; ontem, a segurança “democrática”  do  líder do paramilitarismo, Álvaro Uribe, e de seus sucessores (Santos e Duque, 2004-2022) ou o Estatuto de Segurança  no Governo de Julio César Turbay (1978-1982). 

O que se esperava de um governo de esquerda era submeter ao debate público e à consulta popular o papel de insubordinação da soberania nacional aos Estados Unidos, diante das grandes mudanças geopolíticas  que estão ocorrendo no mundo e no Sul Global. O que acontece hoje na arena geoestratégica global definirá o futuro das nações por muito tempo. Esta é de fato uma questão de suma importância na política colombiana e continental. 

O desenvolvimento capitalista aumenta a desigualdade 

Ao contrário da propaganda burguesa de que o governo Petro traria o caos econômico, o  crescimento do PIB em 2024, de acordo com as estimativas do FMI, esteve por volta de 3%. O ano de 2025 começou com uma taxa de inflação de 5,2%, uma das mais baixas do continente. O peso colombiano é uma das moedas regionais que mais se valorizou, e as exportações aumentaram para os EUA, a Europa, a China e a Venezuela. O problema é que os empresários em vez de aumentarem o investimento produtivo, aumentaram os seus investimentos no estrangeiro em 217%, procurando ganhar ainda mais e pagar menos impostos. 

O desenvolvimento capitalista não trouxe qualquer melhoria na qualidade de vida da classe trabalhadora. A economia colombiana é a terceira mais desigual do mundo, superada apenas pela África do Sul e pela Namíbia. A economia informal afeta 55% da população ativa, aumentando a precariedade e deixando sem efeito medidas governamentais como o aumento do salário-mínimo para milhões de trabalhadores, gerando descontentamento porque o preço dos alimentos continua elevado, os serviços de saúde continuam a ser administrados por empresas privadas, etc.

Petro e Francia Márquez assinaram um documento público comprometendo-se a não expropriar nenhuma propriedade, apesar de este ser um instrumento aprovado pela própria Constituição no seu artigo 58. Num país onde a deslocação forçada é uma prática constante da burguesia, que tem utilizado o exército e grupos paramilitares para a levar a cabo, expropriar essas terras roubadas e devolvê-las aos camponeses é fundamental. 

O governo de esquerda preferiu negociar com os grandes proprietários de terras, incluindo a Federação Nacional de Pecuaristas (FENAGA), liderada por José Félix Lafaurie, um conhecido empresário com ligações aos paramilitares, comprando-lhes parte das terras. O Plano Nacional de Desenvolvimento  prometeu 3 milhões de hectares para os camponeses. Petro prometeu cumpri-lo mas em agosto de 2024, tinham sido entregues 353 668 hectares, ou seja, apenas 10% do compromisso inicial.

A  Lei 2.381 de 2024, que institui o Sistema Integral de Proteção Social foi inspirada na mobilização popular e na base programática do governo popular, estabelece um conjunto de regras que favorecem os direitos da população adulta, particularmente mais de 3 milhões de idosos completamente desprotegidos, pobres e socialmente abandonados. Eles receberão um subsídio mensal de 224.000 pesos (US$ 55).

Um magistrado da caverna reacionária, o Sr. Jorge Ibáñez, das correntes mais obscurantistas dos meios jurídicos dos tribunais superiores, planejou uma ação para que o pleno do Tribunal Constitucional declare inconstitucional a Lei 2381 em 18 de fevereiro de 2025, anulando os avanços sociais alcançados pelo governo nacional e a mobilização popular. A declaração tem um claro teor político e antissocial que deve ser rejeitado pela maioria popular do país.

Conflito armado e eclosão da violência em Catatumbo

Em 16 de janeiro, o Exército de Libertação Nacional lançou uma ofensiva contra vários dissidentes das FARC que  causou 54 mortes e fez 54.000 deslocados internos na região de Catatumbo. Historicamente, esta zona tem apresentado atividades militares devido à sua localização geográfica na fronteira com a Venezuela, aos poços de petróleo e a um rio que permite o transporte de alimentos, combustível, armas e droga. 

Petro abordou este surto de violência enviando mais tropas para Catatumbo. Mas os seus habitantes receiam, com razão, que isso aumente as hipóteses de acabarem mortos ou de não regressarem rapidamente a casa. Um governo de esquerda não pode lidar com este problema confiando num exército cujas ligações à oligarquia e ao narco-paramilitarismo são parte do problema.

A única maneira de proteger a população mais vulnerável e acabar com a guerra é uma verdadeira reforma agrária que elimine a concentração de terras nas mãos da oligarquia agrária e pecuária e a nacionalização dos bancos e dos grandes grupos alimentares sob o controlo dos trabalhadores para acabar com a sua especulação e pilhagem, garantindo terra, investimento, tecnologia e formação para o campesinato. Isto entusiasmaria e mobilizaria as massas, criando as condições para acabar com as máfias e a violência.

Combater o imperialismo exige uma política revolucionária

Algo que tem dado apoio a Petro são os seus discursos de denúncia do imperialismo estado-unidense. Historicamente, os governos colombianos têm-se curvado a Washington. Recusou-se a apoiar o governo fascista de Zelensky na guerra da Ucrânia e condenou as ações sionistas em Gaza, falando de genocídio. Mas depois de ter apregoado o corte de relações com Israel, aceitou a pressão da burguesia para manter as relações comerciais. Um verdadeiro escândalo.

Recentemente, recusou-se a permitir a entrada de aviões estado-unidenses que transportavam migrantes deportados em condições indignas, acorrentados de pés e mãos, exigindo-lhes um tratamento justo. Mas, mais uma vez, a ausência de medidas verdadeiramente socialistas expõe a fragilidade das suas posições reformistas.

A alternativa à submissão dos governos de direita ao imperialismo selvagem dos Estados Unidos não pode ser manter o capitalismo procurando mais investimentos e uma suposta maior soberania através de acordos com a China. A forma de resistir à ofensiva da extrema-direita de Trump e Uribe é uma política revolucionária que exproprie os capitalistas colombianos e as multinacionais para planejar democraticamente a economia e dar uma solução às necessidades da classe trabalhadora e do conjunto dos oprimidos. Isto não pode ser feito com a política de pactos com a direita e a burguesia que Petro apresenta. A tarefa para os ativistas e militantes da esquerda na Colômbia é levantar uma alternativa revolucionária baseada no programa do marxismo revolucionário.

Seja qual for a direção política que o governo de Gustavo Petro tomar, ele provavelmente não conseguirá cumprir seu programa de governo, e não é absurdo dizer que isso pode acabar abrindo caminho para a extrema direita retornar ao poder. E isso seria um pesadelo e o maior obstáculo para continuar o projeto de mudança na Colômbia. 

Na América Latina, há vários exemplos do desastre deixado por governos que vacilaram e co-governaram com o inimigo histórico, em alianças de classe, alguns até enfrentando impeachment e prisão. (Alberto Fernández, Argentina; Rafael Correa, Equador; Gabriel Boric, Chile; Lula/Dilma, Brasil; Pedro Castillo, Peru). 

Quando se hesita entre aprofundar e radicalizar o projeto numa aliança organizativa e política com as bases, a constituinte primária, retomando o caminho da independência definitiva, corre-se o risco de perder tudo; Tomar qualquer um desses caminhos hesitantes mergulhará a nação de volta na noite escura, o prelúdio da morte da esperança na Colômbia e da unidade dos povos da Nossa América.

Leave a Reply