A tentativa de golpe na Nicarágua e a vitória popular

JORNAL INFO No. 16

A tentativa de golpe na Nicarágua e a vitória popular

Prof. Dr. Ricardo F. Rabelo

                Aparentemente tudo não passava de uma massiva e autentica manifestação popular contra  os desmandos do Governo de Daniel Ortega, protestando principalmente contra a Reforma da Previdência implementada pelo governo sandinista. Os manifestantes se diziam autoconvocados pelas redes sociais através da hashtag SOSINSS e à medida que uma intensa campanha de propaganda se desenvolvia na mídia tradicional e nas redes sobre a grande repressão do Governo e da juventude sandinista ao movimento, aumentava mais e mais a participação popular nas manifestações.

                Na verdade, estava entrando em operação mais uma “guerra híbrida” contra um governo nacionalista e popular como ocorreu em vários lugares do mundo, sob a égide do imperialismo americano. Foi assim nas manifestações de junho de 2013 no Brasil, que partiu também de uma manifestação popular em principio legítima, contra o aumento das passagens de ônibus e metrô em São Paulo, mas que foi depois controlada e manipulada pela mídia e pelas redes contra o Governo popular de Dilma Roussef e preparou o caminho para o golpe que a derrubou em 2016. Há semelhança também com as manifestações do chamado movimento Euromaidan que começou com uma minoria de direita e que cresceu com a manipulação da mídia e das redes contra o Governo de Víktor  Ianukóvytch, identificado como aliado de Moscou na Ucrânia.

Na Nicarágua a mídia divulgou fotos de possíveis estudantes feridos pela repressão policial, o que estimulou muitos a participar do movimento. Entre elas, uma foto que viralizou nas redes de uma idosa supostamente agredida pela polícia. Tratava-se de Ana Quirós, uma costarriquense nacionalizada nicaraguense que se identificava para imprensa como “autoconvocada”, dando a entender que ela não possuiria nenhum vínculo político . Entretanto, ela era diretora da CISAS – uma ONG ligada ao MRS, partido que surgiu de uma dissidência do sandinista mas que se tornou um dos principais instrumentos da direita e do imperialismo no país.

O conhecido bombardeio de “fakenews”, muito usado no Brasil na campanha de Bolsonaro, também foi utilizado desde 18 de abril, data de início das manifestações. O objetivo final é que o movimento se tornasse “viral” .  Foi o que ocorreu na Nicarágua. Logo no início das manifestações começou uma  explosão de anúncios patrocinados no Facebook, com perfis falsos, e milhões de mensagens de WhatsApp. A ênfase era colocada sobre a repressão do Governo e de grupos sandinistas contra os “ manifestantes pela liberdade”.

Na verdade não ocorreu nenhum “massacre estudantil’, mas sim a utilização dessas notícias forjadas , com grande estardalhaço, para gerar indignação popular. Outra notícia falsa foi a suposta existência de franco-atiradores para matar civis. Tudo isso para jogar a população contra os sandinistas e o Governo Daniel Ortega.

Paralelamente, começou uma grande ação para se limpar da memória da população os símbolos da revolução sandinista: nos atos de violência e vandalismo nas ruas, os grupos de ativistas e destruíam ou pintavam em cima de seus monumentos históricos, substituindo as cores vermelha e negra (da bandeira sandinista) pelas cores azul e branco (da bandeira burguesa da Nicarágua)..

Durante semanas, a maioria das ruas em todas as cidades de Nicarágua foram pintadas de azul e branco – ações levadas a cabo por pessoas contratadas pela Igreja Católica( que participou intensamente da tentativa de golpe) , partidos da direita e algumas famílias oligárquicas locais. No Brasil apelou-se para o uso da camisa verde e amarela da seleção e a própria bandeira do Brasil em substituição  às bandeiras vermelhas do PT e  do conjunto da esquerda. Algo semelhante aconteceu também no Euromaidan da Ucrânia, com o uso da antiga bandeira ucraniana e de símbolos nazistas como a própria suástica.

No segundo dia de protestos ocorreram atos de vandalismo e violência, com ataques a edifícios do governo em várias cidades, sinalizando o início de uma guerra não-convencional, semelhante aos casos da Líbia, Síria e Ucrânia. Nas semanas seguintes, mais gabinetes municipais, estações de rádio públicas, universidades e casas de sandinistas foram incendiadas. Granada, Estelí, Masaya, León, Managua, Tipitapa, Diriamba e Chinandega, entre outros lugares, foram afetados .

https://youtu.be/qTJFms6Gvwg – Vídeo – Alianza del Caos – Documentário

O Youtube coloca antes do inicio deste vídeo a advertência: Este vídeo pode ser impróprio para alguns usuários. E depois dá a opção para o usuário assistir o vídeo: EU ENTENDO E DESEJO PROSSEGUIR

https://www.youtube.com/watch?v=TZM2wAbmVnc The New batle for Nicarágua 2018

O vídeo foi retirado pelo Youtube:

Vídeo indisponível Este vídeo não está disponível em seu país

Outro grande instrumento deste movimento foi o uso do terrore da violência sem limites. Sequestros, torturas e até mesmo a morte de ativistas queimados vivos foram usados para espalhar o terror diante dos militantes de direitas que ficavam, assim, com grande poder nos chamados tranques (barricadas – ver a seguir.)Em 20 de abril Cristian Emilio Cadena, militante da  Juventude Sandinista, foi o primeiro estudante assassinado, incinerado, vítima de um incêndio provocado no CUUN (Centro Universitário da UNAN), em León. Esta forma violenta de combater os sandinistas foi muito utilizada na Venezuela, com as garimbas.

 

Documentário – Claves de la Verdad- Capítulo IV – Crime contra o estudante Cristian Emilio Cadena

Nesse quadro, muitas vezes a polícia foi acusada de assassinar cidadãos nicaraguenses em contextos em que seria quase impossível. Por exemplo, BBC e The  Guardian culparam o governo por um incidente ocorrido em 16 de junho, conhecido 237 “Incêndio do Bairro Carlos Marx”, em que um grupo de homens encapuzados atearam fogo a um prédio em Manágua com coquetéis molotov, causando sete mortes, incluindo a de um menino de dois anos e a de um bebê de cinco meses. Vizinhos testemunharam o fato e disseram que viram homens armados impedindo a família de escapar. Como é relatado em um documentário , nesse período todo o bairro estava cercado pelos tranques da oposição.

– Documentários Claves de la Verdad Capitulo I – Incêndio en el Barrio Carlos Marx

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Mais tarde, a polícia prendeu os culpados e encontrou evidências substanciais de que o incêndio fora realizado por indivíduos vinculados à oposição . Como na Ucrânia, durante esse período a polícia também foi acusada de disparar balas reais contra os manifestantes, embora há provas de que foram utilizados franco-atiradores não-policiais contra os manifestantes e a polícia. Por exemplo, em 30 de maio, manifestantes pacíficos do Dia de la Madre foram tragicamente assassinados por franco-atiradores. Um documentário examina o que aconteceu nesse dia . A polícia foi acusada por estes assassinatos, mas nunca se determinou a fonte dos disparos; 20 policiais sofreram feridas de bala  .

https://youtu.be/3eN7AbYu_n0    Documentário – Claves de la Verdad | Capítulo VI: 30 de Mayo en Nicarágua

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Na verdade, a policia não utilizou munição real e existem provas  que os oposicionistas vestiam camisetas sandinistas para agredir suas próprias manifestações . Em Masayaos opositores roubavam uniformes da polícia para seu uso próprio .

As barricadas (Tranques)

As barricadas, chamadas de tranques na Nicarágua, foram a expressão plena da aplicação da guerra não-convencional na Nicarágua, e lembram o formato das guarimbas da Venezuela. Os tranques eram uma espécie de barricadas operadas pela oposição que criavam uma área protegida onde ninguém podia entrar sem autorização dos “tranqueiros”. Os tranques começaram a se instalados em 10 de maio e aos poucos se multiplicaram pelas cidades, sendo dirigidos muitas vezes por elementos criminosos

Os tranques foram um meio de controlar e conter  a população dos bairros, pois sua entrada na área de um tranque dependia da aprovação da  documentação apresentada. Existiram  muitos casos de moradores roubados, agredidos, sequestrados, despidos e pintados com tintas azul e branco (as cores da bandeira nacional). Muitas das mulheres eram estupradas, e em geral os residentes eram torturados, assassinados e até queimados vivas.

 Os elementos dos tranques desencadeavam muitos ataques e destruição de prédios públicos. Aproximadamente 252 edifícios foram queimados ou saqueados, incluindo muitas casas. Cerca de 400 veículos – em muitos casos veículos policiais e ambulâncias – foram destruídos. Umas 278 máquinas pesadas foram danificadas ou destruídas. O custo dos danos às mercadorias e veículos da setor público é estimado em 231 milhões de dólares.

Em termos econômicos as perdas  foram calculadas em 961 milhões de dólares, o desemprego atingiu cerca de 120.000 pessoa. Muitas escolas e empresas foram fechadas sendo que muitas destas últimas não voltaram a abrir. Com os tranques se espalhou o medo e o terror pois as pessoas temiam, todos os dias, serem vítimas de algum ataque dos tranqueiros, que andavam em motos ameaçando e aterrorizando os cidadãos.

Igreja Católica: dirigiu as ações golpistas e foi cumplice ativa nas torturas e violências contra a população

Os bispos católicos aparentemente foram responsáveis peala criação dos tranques e agiam ativamente no seu impulsionamento e atuação. Usavam as igrejas para esconder  armas e proteger criminosos. Muitos sacerdotes chegaram a assistir sessões de tortura dos tranques, como a de Sander Bonilla , membro da Juventude Sandinista. O policial Gabriel de  Jesús Vado foi sequestrado, arrastado por um carro em movimento e queimado vivo enquanto era filmado por uma câmera de celular, no tranque de Monimbó , e o sacerdote Harvin  Padilla assistia.

No vídeo, pode-se ouvi-lo dizendo para os torturadores que isso não deveria ser publicado para não criar uma “imagem ruim” . A população regia e se revoltava com os padres tranqueiros, como em Diriamba, em julho , quando membros da  hierarquia, incluindo o bispo Silvio Báez, foram enxovalhados por uma multidão enfurecida que os chamavam de assassinos. O vídeo existente sobre essa manifestação foi retirado do Youtube. A igreja local havia servido de refúgio de criminosos e de arsenal de armas , com a cumplicidade dos padres. Uma  pessoa havia sido sequestrada e  presa ali por vários dias. Enquanto isso, como relata uma moradora no vídeo, o povo de Diriamba suportava nas barricadas locais há mais de um mês a violência dos tranques, e nunca nenhum sacerdote ou bispo teria ido visitá-los.

​https://www.youtube.com/watch?v=glPd37CyphI​ – Vídeo 24 HORAS NICARAGUA. Diriamba corre a sacerdotes que escondían delincuentes en Iglesia

VIDEO RETIRADO PELO YOUTUBE COM OS DIZERES: ESTE VÍDEO NÃO ESTÁ MAIS DISPONÍVEL

Vídeo  Padres assistem a torturas

​https://www.youtube.com/watch?v=KKuUWqYxyP4​ Vídeo – 24 HORAS NICARAGUA. “Nos tenían presos” Aseguran Diriambinos.

VIDEO RETIRADO PELO YOUTUBE COM OS DIZERES: ESTE VÍDEO NÃO ESTÁ MAIS DISPONÍVEL

    Vídeo – Padre Harvi Padilla assiste policial sendo queimado vivo.

  Vídeo – manifestação de população de Diriamba contra as armas encontradas escondidas na Igreja São Sebastião

Em outubro de 2018, foi revelado um a gravação em que o  bispo Silvio Baez claramente vincula os tranques à pressão sobre o governo.  No áudio, o bispo diz :  “Temos que pressionar de novo o governo para que peça à Conferência Episcopal que refaça o Diálogo. Estivemos pensando em montar tranques outra vez”.

https://youtu.be/O53-9OR98jc – Vídeo sobre áudio do Padre Silvio Baez propondo derrubada do Governo

Báez se orgulhava também do papel importante da hierarquia católica na criação da Alianza Cívica (a coalização da oposição criada durante a crise), com comentários como: “A Aliança sabe que nós, os bispos, a criamos. Se a Aliança existe, é porque nós a criamos”. Na gravação, ele afirmou também que “os tranques  foram uma ideia maravilhosa”, e se escuta  ainda ele discutindo a possibilidade de uma segunda onda de tranques para matar Ortega: “Temos o forte desejo de levá-lo a um pelotão de fuzilamento”.

As Ocupações de universidades

O foco do movimento de abril foi concentrado nas universidades, tudo se passa como se fosse um movimento estudantil “pacífico” e não partidário contra a repressão violenta da “ditadura” de Ortega. Na verdade não se trata de um movimento feito por estudantes, mas sim por grupos de bandidos armados , totalmente voltados para a derrubada do governo. E um partido, o MRS esteve sempre muito ativo na Universidades, seja levando dinheiro e armas, seja coordenando e impulsionando as ações violentas dos “estudantes”. A ocupação da Universidades porque a origem, pelo menos, do movimento era estudantil, mas não se trata disso. Toda revolução colorida trata logo de  ocupar um lugar de referencia para aparecer para a opinião publica como uma espécie de quartel geral do movimento.

Houveram dois tipos de ocupação de Universidades,  as voltadas para Universidades privadas,  onde se desenvolveu uma participação da elite econômica no processo e a ocupação da UNAM , a principal Universidade pública da Nicarágua.

No caso da ocupação da Universidad Nacional Autónoma de Nicaragua (UNAN), há uma ênfase na destruição da própria Universidade, na utilização de armamento pesado e na criação de fake news sobre uma suposta repressão do governo ao movimento. A destruição era, no entanto, a tônica do movimento, que já havia expulsado da UNAM os representantes da UNEN, similar à UNE no Brasil, cortando qualquer laço com o movimento propriamente estudantil.

https://youtu.be/C-AixyWv3BE Vídeo Delinquentes da UNAN fortemente armados

Video – Delinquentes da UNAN encenam um ataque

https://youtu.be/zlwbXv9Lukk –  Vídeo Delinquente da UNAN confessa atos de terrorismo 

https://www.youtube.com/watch?v=OKcdRVE6Mlk​​  “mamá perdoname, me voy a morir”. 

Este vídeo foi removido por violar os Termos de Serviço do YouTube

https://youtu.be/cNMJQ52uquo Vídeo Golpistas Destruyen el CDI Arlen Siu em Manágua

Os criminosos atearam fogo ao  Centro de Desarrollo Infantil Arlen Siu, que foi completamente destruído .  Os criminosos se divertiram em tirar fotos em frente ao Centro, mostrando como eram poderosos dentro do movimento. Há uma personagem neste movimento, Dania Valeska Aleman, que mostra bastante as características dos grupos que se apossaram dele.  Valeska participou de uma das várias simulações de ataque governamental ao movimento, e ficou famosa com a frase   “mamá perdoname, me voy a morir”. Quando foi presa, ela deu um depoimento assumindo  que o seu famoso  vídeo era forjado, e contando em detalhes o funcionamento da ocupação.

Seu testemunho também inclui informações sobre a participação do MRS. Valeska declarou que durante a ocupação da UNAN ela trabalhou junto com uma jovem apelidada Pancha, que  estava em contato regular com Dora María Téllez, fundadora do MRS, e que dela recebia fundos destinados aos ocupantes. Ela conta que após certo tempo houve muita discórdia entre os criminosos sobre o controle do dinheiro. Quando a polícia conseguiu entrar na UNAN, recolheram muitas provas da ocupação criminosa: as armas, os objetos roubados e a destruição das instalações da universidade .

https://youtu.be/3kA5-Ty4KN8 Vídeo Testemunho de Dania Valeska Alemán 

Um dos detidos na UNAM foi identificado como Kevin Gutiérrez, de 21 anos, fundador do Movimiento 19 de Abril. Junto com Victor Cuadras e Lesther Alemán, planejavam atos terroristas como queimar e destruir edifícios públicos e emissoras de rádio. Estiveram envolvidos no incêndio da rádio Tu Nueva Radio Ya em 28 de maio .

Na Universidad Politécnica de Nicaragua (UPOLI) ocorreu uma ocupação similar, mas com algumas diferenças importantes. Em primeiro lugar , não foram desenvolvidas ações violentas de destruição de prédios. Os lideres do movimento se voltaram mais fortemente para ações destinada a manter o controle da população local, inclusive com uso de técnicas de tortura e violência contra  populares. O alvo de algumas ações violentas era contra símbolos do governo. Detalhes adicionais sobre a UPOLI foram fornecidos pelo conhecido criminoso Christian Mendoza (“Viper”); ao ser preso confessou ter utilizado a universidade como lugar de reunião de sua quadrilha, trazendo até 35 pessoas armadas, preparando coquetéis molotov e instando os jovens a atacar os símbolos do governo para semear o caos.

​https://www.youtube.com/watch?v=BwnRM5we4As​ Vídeo Depoimento de Veronica Gutierrez

Mas a característica maior deste tipo de ocupação era a criação de relações com lideres da sociedade civil. Quem eram esses lideres?  Félix Maradiaga, diretor da ONG Instituto de Estudios Estratégicos y Políticas Públicas (IEEPP), financiado pela NED; Luciano García, presidente da ONG Hagamos Democracia; Hugo Torres, vinculado ao partido MRS; e Moisés Hassan Morales, ex-membro da junta de governo da FSLN e ex-prefeito de Manágua, que deixou a FLSN em 1988. Maradiaga e Torres foram à UPOLI para fornecer dinheiro a um grupo chamado “8 de Marzo”, para compra de armas, drogas, e para perpetrar atos de terrorismo, com  o propósito de  “criar o caos”.

Esse é o objetivo real das ocupações; promover um caos amplo, que torne impossível o governo e o regime sobreviverem. O medo é criado e expandido para o conjunto da sociedade, levando à uma situação de total deterioração que possibilite o “regime change”. Foi o que foi feito na Ucrânia, no golpe na Bolívia, etc.

Em setembro se emitiu uma ordem de prisão a Maradiaga e Pío Arellano; naquele momento Maradiaga se encontrava nos EUA desde julho . Esta  é uma evidência de que as ONGs pró-democracia  financiadas pela NED não são tão “pacíficas” e “democráticas” como parecem. Também há provas da participação do MRS na ocupação da UPOLI.

https://youtu.be/-k4SNaH3tzU Vídeo  – Depoimento de Viper 

Vídeo – Viper: Maradiaga e Çuciano Gasrcia entregavam as armas a Pio Arellano para criar o caos 

Verónica Gutiérrez, Leonel Morales e outros representantes da UNEN e de trabalhadores deram uma coletiva de imprensa em 26 de abril de 2018, denunciando a ocupação de sua universidade  por parte de pessoas que não eram estudantes, e afirmando que estavam sendo financiados  pelo MRS, que levava armas, roupas e alimentos a estes não-estudantes. Os estudantes informaram ter visto vários líderes do MRS na UPOLI durante esse período, como Victor Hugo Tinoco, reunindo-se com aqueles que teriam postos de alto nível na ocupação.

Vídeo  Universitários da UPOLI denunciam a MRS por ter sequestrado sua tradição estudantil.

 Em represália por sua postura enérgica em público, na coletiva de imprensa e no Diálogo Nacional , Leonel Morales foi atacado por gangues criminosas, as quais arrancaram as  grades da casa de sua noiva, agrediram-no, dispararam três vezes no rosto e deixaram-no para morrer em uma vala. Milagrosamente ele sobreviveu e foi resgatado, tendo passado meses por tratamento médico.

https://youtu.be/IeYVVu4KIZs Vídeo Leonel Morales: “Mientras estuve hospitalizado no se acercó ningún obispo, ni la CIDH”

https://youtu.be/g09TD1E6BPU – Vídeo Cidadãos rejeitam padres como golpistas

 Manipulação dos acontecimentos pela mídia local e internacional

A mídia é aspecto mais importante da estrutura da revolução colorida. Suas ‘reportagens’ e matérias chancelam a ideologia do movimento, transmite a idéia que é uma verdade irrefutável, pois está sendo transmitida “ao vivo” do local aonde acontece, consegue conferir respeitabilidade à versão que interessa ao principal beneficiado: o poder, e , principalmente, o imperialismo. Por isso se dá muita importância da “cobertura”  chegar ao público internacional. Se isso é feito, a repercussão internacional possibilita que se torne algo que tem apoio, como se diz, “ocidental”, ou seja aquilo que é no essencial, bom, democrático e cujos inimigos são a concretização do “mal”. Esse maniqueísmo nunca aparece como tal, trata-se, a cada momento, a cada notícia ou reportagem de “revelar” quem tem razão e quem está errado. Geralmente se apela para líderes incontestes, tanto dentro do país como no exterior. Ou então se coleta as opiniões dos “especialistas” que, neutramente e com base em dados “científicos” atestam que  o lado  “governamental” ou, no nosso caso, “ a oposição” é que está com a razão.  Os políticos do país que apoiam o movimento terão também a chancela explícita de seus patrocinadores estrangeiros, se tornando também figuras incontestes, personificação da honestidade, da democracia, do bem comum, etc.

 Tudo se passa como se tivéssemos, nos tranques, os lideres democráticos e corretos, lutando contra um governo opressor e violento. Vimos que os tranques são organizados por grupos de criminosos ou de elementos fascistas e  rudes. Essas figuras criam fatos, mentem, forjam situações, sem nenhum impedimento moral ou político para isto. Tudo se resume a ganhar a batalha das ideias e fazer passar a versão que lhes interessa, usando de todos os métodos possíveis. De repente, um movimento que se dizia defensor de reivindicações populares, no caso da Nicarágua, contra a Reforma da Previdência, se “descola” dessa luta e passa claramente a só ter um objetivo: a derrubada do governo ou a renúncia do presidente.

O governo é agora o agente de todos os males da população, e mesmo que tenha desistido da  medida que foi o “estopim” do movimento: ele não é confiável. Um governo como o de Daniel Ortega, enraizado na história do país e eleito em sucessivas eleições passa a ser considerado uma terrível e opressora ditadura. Acusa-se o governo da morte de um número enorme de opositores, de prisões, torturas, tudo o que possa torna-lo aos olhos da população uma figura execrável.   Essas acusações ganham grande peso na esfera da opinião pública ocidental e podem servir para abalar o apoio ao governo entre civis em cima do muro .

 Enquanto ocorria a intensificação da violência contra a população ao redor dos tranques, promovidas por pessoas ligadas a organizações criminosas, os jornais La Prensa , o The Washington Post e o The New York Times repetiam incessantemente em suas reportagens as palavras “massacre de estudantes” para descrever esses eventos, afirmando que o governo assassinou mais de 300 manifestantes, em sua maioria jovens nicaraguenses, e feriu ao menos mais 2800, usando dados oferecidos pelos informes de ONGs de Direitos Humanos como o Centro Nicaraguense de Derechos Humanos (CENIDH), Asociación Nicaraguense de Derechos Humanos (ANPDH), Commission Interamericana de Derechos Humanos (CIDH) e Anistia Internacional. Entidades claramente vinculadas, quando não patrocinadas e financiadas pelos órgão do imperialismo, em especial o estadunidense. Na mídia internacional, uma cobertura significativa era dada a estudantes da oposição como Lesther Alemán, Víctor Cuadras e Valeska Valle, que apareciam em reportagens no The Guardian , El País e The New York Times .

Por outro lado, os relatos de Verónica Gutiérrez e Leonel Morales, representantes eleitos do movimento estudantil, e que presenciaram como os protestos foram se revelando violentos, foram ignorados. Embora existam vídeos e entrevistas abundantes com cidadãos nicaraguenses comuns que sofreram com a crise, incluindo vítimas de torturas , mulheres  que descrevem como foram ameaçadas nos tranques , pessoas que denunciam padres como golpistas e camponeses que descrevem como seu país estava sendo destruído , essas  vozes foram amplamente descartadas. Não há debate, não há resposta à denuncias  mesmo que tenham provas, há apenas o silêncio. São vozes ligadas ao governo opressor,. “sandinistas vermelhos”, elementos corrompidos que não merecem sequer ser ouvidos.

O governo é mostrado como controlador da opinião pública, razão pela qual parte significativa da população o apoia e  vota nele. Na verdade, os principais jornais, La Prensa e  El Nuevo Diário, o semanário Confidencial e vários canais de televisão, muitos sites web são de propriedade da oposição. O  Confidencial, também da família Chamorro, é financiado pela NED, e recebe 175 mil dólares por ano para fazer oposição a Ortega. Em maio de 2018, o Confidencial publicou uma “análise” da crise, escrita pela CINCO, uma ONG – dando um tom de maior “imparcialidade” e “respeitabilidade” -, mas que na verdade era de sua propriedade (também recebendo financiamento dos EUA ). A “análise” é escrita totalmente na perspectiva da oposição, tendo numerosas referências à “repressão” policial, mas nenhuma aos assassinatos e sequestros de agentes da polícia, nem a queima de veículos policiais .

Um jornalista do The Guardian que foi à Nicarágua, Carl David Goette-Luciak, que tinha antigas ligações com o MRS e a USAID, ignorou deliberadamente a violência da oposição na sua cobertura dos acontecimentos. Por exemplo, ele foi gravado presenciando eventos de extrema violência da oposição contra os sandinistas, como no linchamento na Marcha das Flores , e não publicou nenhuma reportagem ou foto sobre isso, enquanto continuava retratando a oposição como pacífica.

O Diálogo Nacional

Ao longo desse período, o governo fez várias tentativas para resolver a crise. Daniel Ortega, logo no início dos protestos, em 22 de abril, retirou o Decreto Presidencial de Reforma do INSS. Mesmo assim, os protestos continuaram. Então, Ortega convocou com urgência o Diálogo Nacional entre os vários setores da sociedade. Em 24 de abril, pediu à Conferência Episcopal de Nicaragua (CEN) que mediasse, o que foi logo aceito. Entretanto, demoraram-se 20 dias para ser instalada a primeira mesa do Diálogo Nacional (16 de maio). Enquanto isso, ao longo do mês de maio aumentaram rapidamente os tranques pelo país, assim como o número de pessoas falecidas .

Durante a primeira sessão do Diálogo Nacional, o Presidente Ortega e a vice Murillo estiveram presentes, junto com representantes do sistema universitário nacional, sindicatos e a opositora “Aliança Cívica por Justiça e Democracia”, integrada pelo COSEP, representantes de organizações da “sociedade civil” e do movimento estudantil . No entanto, a tentativa foi um fracasso. Em vez de diálogo, muitos “representantes” estudantis gritavam “Assassino! Assassino!”, quando Ortega e Murillo entraram na sala. Durante a discussão, o estudante Lesther Alemán pronunciou um discurso acusando Ortega de promover um genocídio, acrescentando que os estudantes não estavam ali para dialogar, mas para exigir um cessar fogo e a renúncia de Ortega e Murillo . Depois dos protestos persistirem, mesmo com a  revogação do Decreto da Reforma do INSS, o comportamento da oposição na sessão, rechaçando qualquer diálogo – comportamento semelhante ao do Pravy Sektor durante o Euromaidan (2013), quando o presidente Viktor Yanukovytch, pressionado pela violência, convidou-os a um diálogo e eles recusaram, afirmando que seu objetivo era derrubá-lo -, tornou público que por trás dos protestos havia uma agenda muito maior, que era promover regime change.

A mesa de Diálogo Nacional foi um dos momentos mais importantes do período de crise, pois tornou evidente os interesses de classe em conflito. Do lado da oposição (a “Aliança Cívica”), havia: José Adán Aguirre, líder do lobby empresarial privado; María Nelly Rivas, diretora da Cargill e da Câmara de Comércio na Nicarágua; estudantes de universidades privadas do Movimento 19 de abril; Michael Healy, gerente da empresa açucareira colombiana e chefe do lobby dos agronegócios; Juan Sebastián Chamorro, que representa a oligarquia disfarçada de “sociedade civil”; Carlos Tunnermann, 83 anos, ex-ministro sandinista e ex-Reitor da UNAN; Azalea Solís, diretora de uma organização feminista financiada pelo governo dos EUA; e Medardo Mairena, “líder camponês” também financiado pelos EUA, e que viveu 17 anos na Costa Rica antes de ser deportado em 2017 por tráfico de pessoas. Tunnermann, Solís e os estudantes do 19 de abril estão associados ao MRS.  É uma farsa afirmar que trabalhadores urbanos e camponeses estão detrás dos distúrbios.

A Via Campesina, o Sindicato Nacional dos Agricultores, a Associação de Trabalhadores Rurais, a Frente Nacional de Trabalhadores, a nação indígena Mayangna e outros movimentos e organizações tem sido inequívocos em suas demandas pelo cesse da violência e em seu apoio ao governo de Ortega .  Antes de ser encerrado essa sessão do Diálogo Nacional, Ortega prometeu manter a polícia nos quartéis; em contrapartida, a oposição deveria negociar a eliminação dos tranques. Entretanto, a oposição não cumpriu sua parte do acordo; pelo contrário, o número de tranques só aumentou. Ortega, por sua vez cumpriu com sua parte.

A etapa da contraofensiva

Durante os 55 dias em que a polícia esteve fora das ruas a violência se intensificou. Os grupos opositores levantaram mais tranques e bloquearam o tráfego das principais estradas, convertendo esses lugares em áreas de extrema violência, incluindo sequestros, tortura, assassinato e inclusive a queima de pessoas vivas. Observou-se que a partir de julho houve um forte desgaste e fracionamento da oposição, paralelo a uma reorganização dos setores populares (na qual os sandinistas tiveram um papel crucial), e que levou a uma etapa de contraofensiva, culminando na derrota dos golpistas.

O que aconteceu em seguida foi uma reviravolta completa da situação, que a oposição vai atribuir apenas à violência do governo, “um massacre”  e que teria culminado com um número não comprovado de 30000 exilados. Não há dúvida que o governo reagiu ao aumento da violência da oposição, tendo optado em desmobilizar definitivamente os tranques. Mas juntamente com a grande reação dos sandinistas não foi policial, mas com a mobilização da maioria popular que apoiava e apoia o governo.  Os moradores dos bairros começaram a construir barricadas e criar mecanismos de autodefesa para se proteger dos tranques. Muitas dessas ações eram promovidas por cidadãos comuns usando máscaras para proteger as suas identidades e a integridade física de seus familiares – o que levou a oposição a rotulá-los como paramilitares.

As barricadas foram lugares de cuidado coletivo com horários e funções definidas para manter a seguridade territorial, onde se encontravam jovens, velhos, vendedores ambulantes das ruas, vendedores dos mercados, desempregados, camponeses, aposentados, servidores públicos, donas de casa, ex militares. Muito além da posição ideológica, os unia a necessidade de proteção coletiva, a oposição à violência e aos abusos nos tranques. A logística destes espaços foi assumida pela população do território, porque, dados os cercos geográficos, não havia outra maneira de garantir a alimentação, a mobilidade e a segurança.

As tarefas básicas destes pontos organizados nos bairros foram a proteção física dos bairros e instituições, criar espaços sem ódio e discriminação, trocar informações, comunicar o que estava acontecendo pessoa a pessoa . No geral, se encontravam na entrada dos bairros em alguma casa e ao redor de instituições públicas ou casas do partido. No cotidiano se reconstruiu e valorizou a verdade e com ela a memória histórica dos territórios. Quem teve a habilidade de mudar  os termos do conflito mediante ações cotidianas e coletivas foi a militância histórica do sandinismo, que muitas vezes deixou de lado contradições pessoais e pôs à disposição toda a sua experiência organizativa, força moral e consciência histórica para mudar a correlação de forças.

Nestes espaços, se encontravam bisavós que lutaram contra Somoza, avós que defenderam a revolução nos anos 1980, pais e mães que lutaram contra o neoliberalismo. Juntos realizaram vigilância coletiva dia e noite na entrada de ruas, bairros, casas de famílias ameaçadas, instituições, trocaram comida e fortaleceram o diálogo geracional, a coesão social territorial, a comunicação pessoal e a identidade territorial. Houve um diálogo geracional: os sandinistas históricos revelaram quem eles eram para a juventude que anteriormente os tratava, muitas vezes, com menosprezo; foram revalorizados e reconhecidos em seus territórios, posto que carregaram nos ombros o destino do conflito territorial; eles e elas compartilharam sua experiência organizativa, ideológica, liderança e os jovens sua experiência nas redes sociais e energia.

As distintas gerações aprenderam mutuamente. A crise política tornou-se uma incomparável formação política em tempo real para milhões de jovens. Por essa razão, em 2018 o sandinismo mobilizou mais pessoas nas ruas que em todos os seus 60 anos de história política O  protagonismo do sandinismo no processo de desmantelamento dos tranques é corroborado por uma abundante quantidade de vídeos que revelam a população nos bairros demonstrando sua gratidão aos sandinistas por liberarem as ruas e celebrando a vitória contra os golpistas .

 A partir de julho, com a progressiva eliminação dos tranques, a vida estava voltando em grande parte à normalidade. Este mês marcado por contínuas mobilizações populares pela paz , em especial a massiva marcha realizada em 7 de julho. Algumas dessas atividades foram abordadas no documentário Guerra contra el Pueblo . Em 19 de julho de 2018, centenas de milhares de nicaraguenses foram às ruas com a FSLN comemorar o aniversário da Revolução Sandinista , marcando a derrota da tentativa de golpe.

  – Vídeo – Povo comemora fim da tentativa de Golpe  1

-Vídeo – Povo comemora fim da tentativa de  Golpe   2

https://youtu.be/4JSR8pUNXYA Documentário – Nicarágua: Guerra Contra El Pueblo (Crónica del intento de golpe de estado)

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A discrição do espectador é aconselhada  EU ENTENDO E DESEJO PROSSEGUIR